28/08/2022 às 19h09min - Atualizada em 29/08/2022 às 12h02min

“A língua brasileira é fruto de um processo de resistência”, avaliou Eliane Brum na FIL

SALA DA NOTÍCIA Verbo Nostro
 Os trajetos do Brasil continental são entrelaçados por uma longa colcha de retalhos com vários ‘Brasis’. Essas influências estão presentes na escrita de Eliane Brum e Roberta Tavares, participantes da “Sessão Mapa Literário: Mulheres de Norte a Sul”, na manhã deste sábado (27), durante a 21ª FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, no auditório Meira Júnior, no Theatro Pedro II.

Na sessão Mapa Literário: mulheres de Norte a Sul, que abriu as reflexões do dia, a escritora, jornalista e documentarista, Eliane Brum, participou de forma on-line, trazendo sua experiência com as variações da língua -  sua ferramenta de trabalho – tanto no jornalismo quanto na literatura. Ela comentou que não mantém o mesmo tipo de escrita em suas obras, se permitindo ficar livre para aflorar as pessoas que ouviu durante os mais de 30 anos de jornalismo. “O ritmo e o tipo do meu texto sobre as pessoas do Norte não pode ser o mesmo sobre as do Sul. Existem diversos Brasis em mim. Eu sou um coletivo”, explicou a jornalista.


A poeta e historiadora afro-amazônica quilombola, Roberta Tavares, que participou da conversa diante da plateia presencial, disse que seu texto vai mudando conforme o tempo passa e se declarou ‘não urbana’, apesar de morar na cidade de Bujaru, no Pará. Nascida em uma fazenda, ela carrega essa origem rural na sua escrita. “Sempre busco colocar os ritmos nos meus textos, sons e sotaques. Cada som carrega um significado. Tudo isso faz o poema acontecer.”, contou.

As duas escritoras concordaram que os brasileiros transformaram a língua portuguesa, vinda dos colonizadores, em uma nova língua: a brasileira. “Temos uma língua própria e ela é nossa, como é nosso esse território. O Ariano [Suassuna] falava que civilizamos essa língua e isso é verdade”, comentou Roberta. “A língua brasileira tem vários ritmos, completamente diferentes do português colonizador. Ela é maravilhosa por conta dessa riqueza imensa, fruto de um processo de resistência, daqueles que foram oprimidos”, emendou Eliane.
 


O autor Julián Fuks trouxe para a FIL suas experiências com a escrita. “Quando terminamos de escrever um livro, nos sentimos vazios, como se perdêssemos nosso rumo. Por isso, passei a escrever em fragmentos e nunca me sinto só”. Foi assim que Julián Fuks iniciou sua participação na 21ª FIL. O jornalista, escritor e crítico literário participou na “Roda de Conversa – Ausências e Presenças de afetos na literatura brasileira”, no auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira.

O escritor relatou que os sentimentos são importantes para a construção de um bom personagem, criando uma identificação com o leitor. “Eu percebi que, na literatura, se você constrói um ‘eu’ marcante, acaba produzindo um vínculo muito mais próximo com o leitor, sendo mais fácil de se aproximar dos sentimentos de cada um”, explicou Fuks.

A programação seguiu durante todo o dia, com muitas atividades gratuitas para todas as idades e interesses. Oficinas, apresentações artísticas, musicais e teatrais, contações de histórias, salões de ideias e conversas roubaram a cena no Quarteirão Paulista de Ribeirão Preto.

Entre os assuntos escolhidos para trazer o público à reflexão, o salão de ideias: Favela e suas potencialidades foi destaque do dia - com Preto Zezé, empresário, escritor, produtor cultural e presidente nacional da Central Única de Favelas, que veio à Ribeirão Preto para participar da Feira Internacional do Livro e Celso Athayde, fundador da CUFA, no Rio de Janeiro, e hoje empresário reconhecido por prêmios mundiais. Os dois falaram de suas vivências e das múltiplas possibilidades que podem ser implementadas nas favelas brasileiras. De forma on-line, Athayde contou sua experiência com as ruas, a carência na infância e as drogas, por meio de um depoimento incentivador para quem vive em favela. “Os sonhos são iguais para todo mundo, as ferramentas é que são diferentes. Precisamos ver quem vai ver cavalos selados passando”, disse. Os dois deixaram a mensagem de que é preciso criar circunstâncias para vencer as limitações e dificuldades de se morar em uma favela. Celso Athayde recomendou que “é preciso ser autossustentável”, se referindo à Escola de Negócios da CUFA e trouxe suas percepções sobre negócios e mercado de trabalho.

No início da noite, o Estande CUFA (Central Única das Favelas), reuniu lideranças femininas de diferentes favelas de Ribeirão Preto para uma conversa sobre o trabalho das Mulheres da CUFA em suas comunidades. O encontro contou com participação on-line de Patrícia Alencar, presidente nacional das Mulheres da CUFA. “Nosso legado de luta é o de fazer várias coisas no sentido de levar melhorias às mulheres das favelas. A transformação das mulheres a partir da economia, da construção de projetos e do pensar novas estruturas tem sido nosso foco”, explicou Patrícia. “É preciso desmistificar que a favela tem gente suja e bandido. A favela tem gente comum. Talvez, o que muda são as condições financeiras”, pontuou Tica de Paula. Além do bate-papo com o público, o encontro deu posse à Aline de Paula como presidente da CUFA Ribeirão Preto, em substituição ao presidente Rafael de Paula, falecido no início de agosto.

Dentro do Theatro Pedro II, o sábado na FIL terminou com o espetáculo “Meu Reino por um Cavalo”, com a Cia Vagalum Tum Tum. Divertida, dinâmica e cheia de sutilezas, a montagem apresentou uma livre adaptação de “Ricardo III”, texto clássico de William Shakespeare. Com exigente trabalho cênico e de interpretação, música, humor, intervenção circense e poesia, a peça coloca em cena temas importantes como ética, respeito pela vida, honestidade, ganância, solidão. A alegria do palco encontrou parceria junto à plateia formada por crianças, adolescentes, jovens e adultos que lotaram a sala principal do Teatro Pedro II. Neste domingo, último dia da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, a Cia Vagalum Tum Tum apresenta o espetáculo “Henriques”, também na sala principal do Theatro Pedro II, às 18h. As duas apresentações são uma realização do SESC Ribeirão Preto.

Do lado de fora, no Ambient de Leitura, na Esplanada do Theatro Pedro II, o público se reuniu para dançar ao som do grupo de DJs de Ribeirão Preto – Tutu Djs, que desde 2002, desenvolve trabalho de pesquisa e qualidade musical. A temática do repertório da apresentação foi a Água.

Sobre a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto

A 21ª edição da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto teve início em 20 de agosto e termina neste domingo (28), trazendo como proposta de reflexão o tema "Do Caburaí ao Chuí: a força da Literatura Brasileira". A proposição embasa todas as atividades e debates do evento.

A feira reúne salões de ideias, conferências, palestras, mesas-redondas, oficinas, shows, espetáculos infantis, performances, contações de histórias, saraus e projetos educacionais, entre outras. Todas as atividades são gratuitas e abertas à população.

Sobre a Fundação

A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos, responsável pela realização da Feira Internacional do Livro da cidade, hoje considerada a segunda maior feira a céu aberto do país.

Com uma trajetória sólida, projeção nacional e agora internacional, ao longo de seus 20 anos, a entidade ganhou experiência e, atualmente, além da feira, realiza muitos outros projetos ligados ao universo do livro e da leitura, com calendário de atividades durante todo o ano. A Fundação do Livro e Leitura se mantém com o apoio de mantenedores e patrocinadores, com recursos diretos e advindos das leis de incentivo, em especial do Pronac e do ProAc.

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