19/07/2018 às 11h30min - Atualizada em 19/07/2018 às 11h30min

Zuckerberg causa polêmica ao defender conteúdo que nega o Holocausto

Para criador do Facebook, notícias falsas não devem ser removidas da rede social

Agência O Globo -
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Dado Ruvic REUTERS

RIO — Não é incomum encontrar no Facebook publicações defendendo ideias absurdas, como a não vacinação de crianças, que a Terra é plana e até mesmo negando fatos históricos, como o Holocausto e, no caso do Brasil, a ditadura militar. Para muitos, tais conteúdos deveriam ser removidos da rede social, já que promovem a desinformação. Mas para o cofundador e diretor executivo da companhia, Mark Zuckerberg, as pessoas podem ter “entendimentos errados” e, por isso, esse material deve continuar na plataforma, mas com menor alcance de distribuição.

Em entrevista polêmica publicada na quarta-feira no site Recode, Zuckerberg foi questionado sobre a permissão de sites que promovem teorias da conspiração e notícias falsas, como o InfoWars, a continuarem operando na plataforma. Alex Jones, criador da página, chegou ao absurdo de afirmar que o massacre na escola Sandy Hook, que deixou 26 mortos em 2012, seria uma encenação promovida pelo governo do então presidente, Barack Obama, para promover leis de controle de armas.

— Eu acho que chegar para alguém que foi vítima em Sandy Hook e dizer: “ei, você é um mentiroso”, é assédio, e isso nós vamos retirar do ar — afirmou Zuckerberg, mas ressaltando que, no geral, conteúdos que não ameacem diretamente um grupo ou uma pessoa devem ser mantidos na rede, como o InfoWars.

Para explicar seu ponto de vista, o executivo citou a negação do Holocausto. Sendo judeu, Zuckerberg disse considerar o revisionismo “profundamente ofensivo”. Contudo, acredita que esse material não deve ser removido.

— Eu não acredito que nossa plataforma deva retirar porque acho que existem coisas que diferentes pessoas entendem errado. Eu não acho que estão enganadas intencionalmente — defendeu Zuckerberg. — É difícil impugnar a intenção e compreender a intenção. Eu apenas penso, por mais abominável que alguns desses exemplos seja, que na realidade eu também entendo coisas erradas quando falo publicamente. (...) E eu não acho que seja a coisa certa dizer: “vamos retirar alguém da plataforma se ela se enganar, mesmo que várias vezes”. O que faremos diremos é: “tudo bem, você tem a sua página e, se não estiver tentando organizar mal a alguém ou atacar alguém, pode colocar o conteúdo em sua página, mesmo que as pessoas possam discordar ou considerá-lo ofensivo”. Mas isso não significa que temos a obrigação de distribuí-lo.

A questão, disse Zuckerberg, é balancear duas questões: defender o direito de as pessoas expressarem suas opiniões e manter a segurança das pessoas. Por isso, ataques diretos contra grupos e pessoas são banidos. Mas a publicação de mentiras, boatos e teorias conspiratórias, desde que não ameacem ou façam mal a alguém, não deve ser proibida.

— Neste caso, nós sentimos que a nossa responsabilidade é evitar que os boatos se tornem virais e sejam amplamente distribuídos — afirmou. — É difícil ter sempre uma linha clara... Eu não estou defendendo nenhum conteúdo específico aqui. Eu acho que muito do conteúdo é horrível. Eu penso que quando entramos na discussão sobre liberdade de expressão, estamos sempre falando sobre as margens do conteúdo que são horríveis, mas defender o direito de as pessoas dizerem coisas mesmo se forem ruins.

 

As declarações, como esperado, causaram polêmica. A Liga Antidifamatória, organização não-governamental que combate o antissemitismo, divulgou comunicado com duras críticas ao posicionamento do executivo.

“A negação do Holocausto é uma tática de enganação intencional, deliberada e persistente usada por antissemitas que são incontestavelmente odiosos, ofensivos e ameaçadores para os judeus”, afirmou Jonathan Greenblatt, presidente da organização, em comunicado. “O Facebook tem uma obrigação ética e moral de não permitir sua disseminação”.

Após as críticas, Zuckerberg enviou um comunicado à jornalista Kara Swisher, que fez a entrevista, afirmando que gostaria de “esclarecer um ponto”:

“Eu pessoalmente acho a negação do Holocausto profundamente ofensiva e absolutamente não quis defender a intenção das pessoas que o negam”, afirmou. “Nosso objetivo com as notícias falsas não é prevenir alguém de dizer uma inverdade, mas impedir que as notícias falsas e desinformações se espalhem pelos nossos serviços”.

A posição do Facebook sobre o fenômenos das notícias falsas certamente não é confortável. Com a polarização política e a ascensão de figuras públicas de extrema direita baseada na difusão da desinformação, a rede social foi forçada a assumir o papel de juiz para decidir o que é ou não verdade. Com um exército de 20 mil funcionários espalhados pelo mundo decidindo o que deve ou não ser removido da plataforma, a tarefa poderia ser simples, com a checagem de dados, mas são as polêmicas que enchem os cofres da companhia.

 

Na entrevista, Zuckerberg admitiu que existem evidências claras de que “os russos tentaram interferir na eleição” americana de 2016, que elegeu o republicano Donald Trump, corroborando investigação da inteligência americana que detectou a atuação de hackers durante a campanha, prejudicando o Partido Republicano. Segundo relato do executivo, a companhia identificou, “antes da eleição, que este grupo de hackers russos, parte da inteligência militar russa, (...) estavam tentando métodos tradicionais de hacking: phishing de contas pessoais para acessá-las”.

— Nós identificamos isso na metade de 2015 e notificamos o FBI. Quando vimos atividade similar durante a campanha de 2016, que eles estavam tentando invadir contas no Comitê Nacional Democrata e no Comitê Nacional Republicano, nós notificamos o pessoal dos partidos — contou o executivo, que admitiu falha da companhia para combater outra estratégia usada pelos hackers. — Agora, existe uma outra área da interferência na eleição que fomos lentos em identificar. É sobre as operações coordenadas de informações que eles estavam montando, (...) que basicamente estava criando uma rede de contas falsas para espalhar informações polarizadas.

E os grupos que atuaram nesta campanha de desinformação compraram anúncios para potencializar o alcance de suas mensagens.

— Sim — respondeu Zuckerberg, ao ser questionado sobre o tema. — Bem, tanto a publicidade como a difusão orgânica.

A demora em perceber tal operação aconteceu porque as equipes de segurança da plataforma estavam procurando por táticas tradicionais de hacking, não por uma estratégia que utiliza a própria estrutura da rede social, justificou Zuckerberg.

— Mas não há dúvidas que fomos muito lentos para identificar este novo tipo de ataque, que era uma operação coordenada de informação on-line — admitiu.

Zuckerberg promete que novas operações que utilizem tal método para influenciar processos eleitorais são foco dos esforços de segurança da companhia, inclusive no Brasil. Em abril, duas páginas de apoio ao pré-candidato Jair Bolsonaro foram retiradas do ar. No mês anterior, após O GLOBO mostrar que a página Ceticismo Político foi responsável pela difusão de notícia falsa sobre a morte da vereadora Marielle Franco, ela foi retirada do ar, assim como a de seu criador, que se identificava como Luciano Henrique Ayan.

— Nós estamos focados em garantir que faremos isso certo em todas as eleições que se aproximam. 2018 é um ano eleitoral incrivelmente importante, não apenas com a eleição para o Congresso aqui nos EUA, mas também tivemos as eleições no México. Temos o Brasil, a Índia no começo do ano que vem. Nós sabemos que temos que fazer isso certo — afirmou.


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