11/07/2018 às 16h50min - Atualizada em 11/07/2018 às 16h50min

Móvel com referência a instrumento de tortura contra escravos causa polêmica

‘Bufê tronco dos escravos’ faz parte de coleção ‘Quilombo dos Palmares’

Agência O Globo -
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O móvel, com círculos, faz referência aos buracos que prendiam os escravos -

RIO — Um móvel inspirado no Quilombo dos Palmares está provocando polêmica nas redes sociais. Batizada como “bufê tronco dos escravos”, a peça de MDF tem acabamento em laminado freijó e detalhe com oito buracos, que fazem referência a um dos mais violentos instrumentos de tortura e humilhação utilizado pelos senhores de engenho contra os escravos. Para críticos, trata-se de um caso de racismo ou, no mínimo, falta de sensibilidade com um dos períodos mais grotescos da História do país. Para os idealizadores, o propósito era “resgatar a luta pela liberdade”.

O móvel faz parte da coleção “Quilombo dos Palmares”, resultado de um projeto do Arranjo Produtivo Local Móveis Maceió e Entorno, parte do Programa de Arranjos Produtivos Locais, coordenado pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo em parceria com o Sebrae/AL. A linha foi lançada em dezembro de 2015, mas a polêmica surgiu semana passada, quando imagens do bufê começaram a circular nas redes sociais.

 

 

 

 

O jornalista Laurentino Gomes, autor dos livros “1808”, “1822” e “1889”, que trabalha numa trilogia sobre a escravidão, foi um dos que demonstraram espanto com o móvel: “Uma das peças chama-se Tronco de Escravos. O tronco era um instrumento horroroso de tortura de cativos no Brasil. Criatividade tem limites, não?”, questionou o escritor.

“A escravidão é extremamente mal estudada no Brasil! A própria ideia de criar uma linha de móveis inspirada em Quilombo já mostra isso. Alguém imagina uma linha de móveis inspirada em Auschwitz?!”, escreveu outro internauta.

 

Para Ana Lucia Araujo, professora de História na Universidade Howard, em Washington, o móvel “é racista e faz apologia da escravidão”. Ela explica que o tronco era um instrumento usado por senhores de escravos e capatazes para punir homens, mulheres e crianças escravizados.

— Para o consumidor afrodescendente cujos ancestrais foram escravizados no Brasil o móvel imitando um instrumento de tortura representa a ideia de submissão e evoca diretamente o sofrimento ao quais seus ancestrais foram submetidos — destacou. — Só um designer branco, sem nenhuma empatia, pode conceber tal peça sem considerar essa dimensão crucial. Que consumidor, a não ser o consumidor branco, pode experimentar algum prazer estético ao ter em sua sala um móvel que evoca diretamente o sofrimento físico e psicológico infringido em milhões de africanos escravizados e de seus descendentes?

 

A pesquisadora, autora de três livros e inúmeros artigos sobre a escravidão, problematiza ainda a relação entre o tronco dos escravos e o Quilombo dos Palmares.

— Ora, Palmares, quilombo que abrigou milhares de escravizados fugitivos era um lugar de rebelião e insurreição contra a sociedade escravocrata brasileira, um espaço de autonomia dos escravizados — criticou Ana Lucia.

Em comunicado, a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo ressaltou que “o Governo do Estado, apesar de discordar da denominação atribuída pelo designer à sua obra, nunca interferiu no processo criativo dos trabalhos desenvolvidos pelos Arranjos Produtivos Locais”.

 

O designer Marcos Batista, que esteve à frente do projeto Arranjo Produtivo Local Móveis Maceió e Entorno, deixa claro que sua participação se limitou a orientar como os móveis poderiam ser desenhados, resgatando as formas, texturas e linhas, mas que as obras foram desenvolvidas por um grupo de 20 marceneiros da região. Eles realizaram estudos, com viagens para a Serra da Barriga, onde o quilombo foi estabelecido, e os marceneiros escolheram objetos de referência para a criação de móveis.

O berimbau inspirou uma luminária; Zumbi dos Palmares, um banco; e o tronco dos escravos, um bufê. Os nomes indicavam os objetos que serviram de referência para o móvel. O designer acrescentou que as peças foram usadas apenas como portfólio para os marceneiros, não chegaram a ser comercializadas, e que em nenhum momento houve a intenção racista.

— Todo o trabalho foi para enaltecer a história, a luta e as conquistas do Quilombo dos Palmares, tema escolhido pelos próprios marceneiros — defendeu Batista. — E os marceneiros não tiveram a intenção de racismo. Muito pelo contrário, o propósito era resgatar a luta pela liberdade.

— Como um objeto que representa a submissão e o sofrimento pode representar Palmares e a luta pela liberdade? — questionou Ana Lucia.


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