13/10/2021 às 15h17min - Atualizada em 13/10/2021 às 15h17min

Carnaval sem máscaras?

Prefeituras avaliam realizar a festa sem nenhum controle de aglomeração ou exigência de vacina

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Com menos da metade da população brasileira vacinada com as duas doses contra a COVID-19, governantes já pensam em flexibilizar as medidas restritivas para realização da festa popular que mais promove aglomeração no mundo. As prefeituras das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro já planejam que o Carnaval de 2022 seja sem o uso de máscaras.

Isso se torna mais do que contraditório, já que o Carnaval estima reunir cerca de 15 milhões de pessoas. E mesmo sem a COVID-19, costuma-se registrar um aumento assustador da infecção por vírus, que inclusive surge durante os festejos.

Só que, durante uma entrevista recente, o secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, declarou que o cenário atual no país possibilita o planejamento da festa. E quando questionado sobre um eventual controle de aglomerações, o secretário disse que não seria viável exigir o comprovante de vacinação. 

“Em um evento dessa natureza fica muito difícil ter um controle de comprovação vacinal, o que temos é o avanço do processo de vacinação”, afirmou ele.

Especialistas em alerta

Porém, mesmo que o número de vacinados avance, haja uma queda de mortes e de casos confirmados de COVID-19, nada está totalmente seguro e essa decisão preocupa epidemiologistas e infectologistas. 

Um exemplo disso é o médico sanitarista, fundador e ex-diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonzalo Vecina Neto, que é contra a realização do Carnaval já em fevereiro.

“Eventos de massa não têm como mitigar riscos. É diferente de um jogo de futebol, em um espaço em que eu controlo quem entra”, alega Vecina. Em entrevista ao portal R7, ele completa: “Carnaval não tem como controlar, e igualmente festa de passagem de ano”.

Outro especialista ouvido pelo portal pede cautela. “Se por um lado a vacinação está avançando, e de fato está, por outro lado temos – como um cabo de força puxando para o outro lado – o espalhamento da nova variante, a Delta”, ponderou Paulo Petry, epidemiologista e professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Na entrevista, o professor citou um estudo que indica o aumento da presença da variante Delta de 25% a 75% entre as amostras coletadas pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos desde junho.

Já o infectologista Carlos Fortaleza, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp, é taxativo quando perguntado sobre o assunto.

“Neste momento, é um despropósito. Nós estamos conseguindo diminuir a COVID por uma combinação do uso de máscara com aplicação de vacinas. Mas ainda não temos a segunda dose para uma parte maciça da população, temos muitos idosos sem a terceira dose. No caso, tirar o uso de máscara é um risco de aumentar o número de casos e mortes desnecessariamente”, ressalta o médico, em entrevista ao R7. Ele também é coordenador do estudo da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) sobre os impactos da vacinação em massa em Botucatu, na cidade de São Paulo.

Passe livre para o que trará lucro

Vale lembrar que de acordo com análises feitas pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), 0 novo coronavírus circulava no Brasil antes do primeiro diagnóstico oficial, porém foi só depois do carnaval de 2020 que ele se propagou. 

Levantamentos apontaram que na quarta semana epidemiológica, entre 19 e 25 de janeiro, havia ao menos um caso de Sars-Cov-2 no país. Já a transmissão comunitária — quando não é possível identificar a origem da infecção —, confirmada oficialmente em 13 de março, teria começado no Brasil na primeira semana de fevereiro.

Com base nesses dados, é possível compreender que o vírus já circulava pelo país antes do Carnaval, período em que há muitas aglomerações e pode ter facilitado ainda mais a propagação do Sars-Cov-2.

Enquanto se anuncia a exigência de comprovante de vacinação ou teste negativo de COVID para que as pessoas possam participar de cultos, como o que aconteceu em Pernambuco, tenta se justificar como algo totalmente tranquilo e normal a flexibilização de medidas sanitárias em uma festa que, notadamente, propaga muitas doenças, tanto virais quanto sexuais.

Uma evidente segregação para liberar o que vai trazer lucros e grande retorno financeiro para os governantes e às grandes empresas, sem nem sequer pensar nas consequências que poderá causar para a população.


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