05/07/2018 às 09h55min - Atualizada em 05/07/2018 às 09h55min

Exposição em Moscou mostra o esporte como poderosa arma diplomática

‘Não apenas futebol’ pode ser vista em Moscou até setembro

Agência O Globo -
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Moscou Nem só de futebol vive a Rússia, mesmo neste momento de euforia com a boa fase da seleção nacional, em plena Copa do Mundo no país. É o que mostra a exposição “Não apenas futebol”, que a Galeria Tretyakov apresenta em Moscou até o dia 11 de setembro, com 18 telas e esculturas de grandes artistas russos do século XX, feitas entre 1920 e 1990, raramente exibidas e destacadas agora do acervo do museu. As peças mostram a força dos esportes na formação recente da Rússia e a projeção que se quer ter a partir deles.

Identificam-se os dirigentes do país nas últimas décadas por uma espécie de obsessão pela prática esportiva e sua politização. Foi assim com Leonid Brejnev (líder da União Soviética entre 1964 e 1982), nadador de primeira linha, Boris Yeltsin (1990 a 1999) e a sua paixão pelo tênis, e o atlético presidente Vladimir Putin, que se apresenta às câmeras do país como um exímio lutador de judô e jogador de hóquei. Em maio, voltou a fazer muitos gols pelo time Lendas do Hóquei.

— Graças a vocês, milhões de pessoas fizeram a opção pelo estilo de vida saudável — disse o líder russo, após marcar cinco gols na partida.

Até início do século XX, o esporte era uma ocupação de aristocratas e ricos. Nas primeiras décadas da URSS, com as grandes realizações esportivas, a educação física virou uma forma popular de lazer. Em seguida, passou a ser um meio de afirmar a superioridade do modelo socialista sobre o resto do mundo, antes de virar uma verdadeira marca da Rússia, a partir da organização de grandes eventos. De lá para cá, o uso do esporte e suas representações só cresceu.

todas as fichas na copa

Se antes era um componente do chamado, a diplomacia do esporte passou a ser uma estratégia em si. Esse conceito foi oficialmente exposto pela primeira vez pelo então presidente russo Dmitri Medvedev, hoje primeiro-ministro, em discurso feito em 2009 no fórum “Rússia — Poder esportivo”. Tudo isso explica o motivo pelo qual Putin aposta todas as fichas no sucesso desta Copa como forma de reafirmar a imagem de potência diante do mundo e de seu público interno. E parece estar se saindo melhor do que a encomenda. Ainda que os russos sejam eliminados nas quartas, eles próprios admitem que o futebol não é o seu ponto forte.

— Futebol? Vocês do Brasil são melhores. Nós tivemos sorte até agora. Somos muito bons de boxe, hóquei e ginástica — sorri Anton, policial da Omon (espécie de Bope russo), na saída do metrô mais próximo à galeria.

Nas décadas de 1920 e 1930, os artistas queriam mostrar o espírito da modernidade. Os esportes tornaram-se um ícone da época, quando havia solenes feriados físicos, desfiles e competições. “E talvez o principal participante fosse a mulher, representante de uma nova sociedade”, diz o museu, na apresentação da exposição. É o que evidenciam as obras “Tênis” (1968-1971) e “O arremesso de peso” (1933), de Alexander Samokhvalov (1894-1971). Era uma uma nova imagem da mulher, de estilo de vida e de ideal de beleza.

O futebol aparece em Alexander Deineka (1899-1969), com os óleos “Jogo de futebol” (1932) e “Goleiro” (1934) e a escultura em bronze “Futebolistas” (1948-1955). O próprio artista chegou a jogar futebol, praticou natação e boxe. Suas obras não têm enredo ou personagens conhecidos. São as figuras de atletas em movimento, que se projetam adiante, saem do chão, superando a força da gravidade.

Em meados do século XX, os artistas passaram a retratar os campeões, nos treinos ou nas competições. Serviram de modelo para os escultores a patinadora Maria Isakova, a amazona Elena Petushkova e a ginasta Olga Korbut, que levaram glória ao esporte soviético.

O vitral “Basquete”, de Deineka, não foi escolhido como tema por acaso pelo artista. Na década de 1950, o basquete feminino soviético tornou-se um dos mais fortes do mundo, conquistando o título mundial em 1959. O esporte virou símbolo do sucesso do país. As Olimpíadas de Moscou de 1980 são outro exemplo: tiveram impacto importante na cultura soviética da época. A entrada da exposição é gratuita para todos os torcedores que vieram assistir à Copa na Rússia.


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