04/07/2018 às 17h39min - Atualizada em 04/07/2018 às 17h39min

Temores de retrocesso político no Paraguai

Favoritismo de candidato presidencial ligado a Alfredo Stroessner gera preocupações quanto o futuro do país

Agência O Globo -
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BUENOS AIRES — Não existe incerteza sobre o resultado da eleição presidencial deste domingo no Paraguai: a menos que aconteça algo totalmente inesperado, a vitória será de Mario Abdo Benítez, chamado por seus compatriotas de Marito, do tradicional e poderoso Partido Colorado. A dúvida que paira sobre o país é outra. O candidato, de 46 anos, tem um passado fortemente vinculado à ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989) — seu pai, Mario Abdo, foi secretário particular do ex-ditador — e muitos temem a chegada de um governo de perfil autoritário, que leve o Paraguai a um profundo retrocesso. Outra opção, apontaram analistas, é que Marito represente a nova direita que está se impondo em vários países da América Latina, entre eles o Chile, onde acaba de ser empossado Sebastián Piñera.

A relação entre Marito e Stroessner — que também era colorado — é inegável. O candidato, que já foi senador e presidente do Parlamento, visitou o ex-ditador durante seu exílio no Brasil e foi um dos que carregaram o caixão no enterro de Stroessner, em 2006. No Paraguai, especula-se até mesmo a possibilidade de que, uma vez eleito, Marito possa propor a repatriação dos restos do ex-general.

Outro elemento questionado por opositores do candidato é a origem de sua fortuna familiar, para muitos vinculada a negócios da última ditadura. Marito evita falar sobre o assunto. Quando é perguntado sobre o ex-chefe do pai, também falecido, assegura que o governo militar “fez muito pelo país” e limita-se a dizer que não “compartilha” das violações dos direitos humanos cometidas na Presidência de Stroessner.

Para onde irá o Paraguai com este herdeiro da ditadura? Com certeza, afirmam analistas, não para o futuro.

— Não está claro se Marito será uma direita moderna, parte deste novo ciclo neoconservador na região, ou uma volta ao passado — disse o sociólogo Ignácio González.

Desde 2012, quando foi destituído o ex-presidente Fernando Lugo, hoje candidato a senador pela progressista Frente Guasú (Frente Grande, em guarani), o Paraguai sofreu um giro à direita. O governo do colorado Horacio Cartes, que tentou mudar a Constituição para incluir a reeleição presidencial e cujo candidato foi derrotado por Marito na eleição interna do partido, foi conservador e preparou o terreno para a provável vitória de um dirigente de perfil similar, talvez ainda mais à direita. Com os colorados no poder, o Paraguai continuará alheio a debates cada vez mais intensos na região sobre direitos civis como casamento gay, aborto legal e leis sobre identidade de gênero.

Marito, apontou o analista político Adrián Cativelli, está em sintonia com uma sociedade que é profundamente conservadora. Basta observar cenas como a recente sessão especial no Congresso para homenagear o filme “Las herederas” (As herdeiras, em português), premiado em festivais internacionais, que conta uma história vivida por um casal de lésbicas. O evento terminou em baixaria, com uma deputada aos gritos, questionando que o Congresso de seu país destaque um filme que fala, também, sobre homossexualidade.

— Não podemos esquecer que o Paraguai só teve lei de divórcio em 1991 e voto feminino em 1961, em plena ditadura — lembrou Cativelli.

O principal rival de Marito, o liberal Efraín Alegre, que segundo pesquisas está até 20 pontos percentuais abaixo do colorado, não tem um programa de governo mais à esquerda. A principal diferença é o foco em políticas sociais. Marito significa, essencialmente, uma continuidade do atual modelo econômico aberto ao mundo e defensor de um Estado cada vez mais enxuto e eficiente. Já Alegre propôs programas de ajuda a setores humildes, num país cuja taxa de pobreza está em torno de 26%.

— Falou-se pouco em desigualdade nesta campanha, ambos candidatos estão de acordo com o modelo — comentou José Tomás Sánchez, ex-ministro do governo Lugo.

A única grande mudança que poderá aparecer no horizonte dos paraguaios a curto e médio prazos é uma reforma constitucional que buscará, essencialmente, permitir a reeleição presidencial. Esse é o objetivo não só dos colorados, mas também de Lugo, que nunca escondeu seu desejo de voltar ao Palácio de López. Durante a campanha também mencionou-se a possibilidade de uma reforma no Judiciário, mas essa hipótese é vista como pouco provável por analistas.

Os paraguaios também irão às urnas para renovar o Congresso e eleger governadores. Tudo indica que o Partido Colorado será o grande vencedor, mas não terá maioria parlamentar. O presidente deverá conviver com pesos pesados no Legislativo, entre eles os prováveis senadores Lugo e Cartes, ambos com ambições de uma futura reeleição.

Na reta final da campanha, Marito e o atual presidente se mostraram unidos. Mas o clima deverá mudar, apontou Armando Rivarolla, diretor de redação do “ABC”, quando a eleição terminar.

— Teremos muitos caciques com poder e isso será complicado para Marito — admitiu.

O candidato colorado é um empresário rico, dono de companhias que dependem de contratos com o Estado, entre elas uma importadora de asfalto. Algo que seria um escândalo em outros países, no Paraguai não chama a atenção. Sua relação quase familiar com o ditador paraguaio tampouco foi um obstáculo para sua candidatura presidencial. A centro-esquerda está em estado de alerta e teme pelo futuro do país.


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