28/07/2021 às 17h07min - Atualizada em 28/07/2021 às 17h07min

Lula: “A fome voltou porque não temos governo”

Em entrevista à Rádio Difusora de Goiás, Lula condena pregação de ódio de Bolsonaro e diz que o Brasil tem solução.”Vamos trazer esperança, o direito de todos de tomar café, almoçar e jantar todo santo dia”

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Ricardo Stuckert

O Brasil vive a triste situação de ter se transformado em um carro desgovernado, descendo com velocidade ladeira abaixo. Para o ex-presidente Lula, Jair Bolsonaro não governa, é uma espécie de eremita isolado do resto mundo. “Quem governa o Brasil é o Guedes e o presidente da Câmara [Arthur Lira]. O presidente é uma Rainha da Inglaterra, ele vive para falar bobagem”, afirmou Lula, em entrevista à Rádio Difusora de Goiás, na manhã desta terça-feira (27).

“A fome voltou porque não temos governo”, definiu o ex-presidente. “A fome voltou forte, o desemprego é maior da história do Brasil e eu não vejo o presidente preocupado em encontrar uma solução para acabar com o sofrimento do povo brasileiro”, disse Lula, que descreveu em detalhes o terrível quadro social do país: “Temos quase 15 milhões de pessoas desempregadas, mais seis milhões que deixaram de procurar emprego. 34 milhões estão trabalhando na informalidade, 19 milhões estão passando fome, 24 milhões em situação de insegurança alimentar”, lamentou o presidente.

Lula considera inadmissível um país com tantas riquezas naturais ser devastado pela miséria e a pobreza extrema. “Não é possível, a gente tinha acabado com a fome. Tem gente comprando um pé de galinha para fazer sopa, pescoço, gente indo ao açougue procurar osso porque não tem dinheiro para meio quilo de carne de segunda. Ontem, por exemplo, o arroz subiu 48%, o feijão, 22%, a carne, 38%, o leite, 11%. O gás de cozinha, que em alguns estados já custa mais de R$ 100, subiu 24%”, apontou Lula.

“Temos hoje o povo cozinhando em lata no meio da rua, cozinhando em pedra. Isso não é aceitável, ver um país que tinha chegado à sexta economia do mundo, virar o que estamos virando”, insistiu o líder petista. 

“Veja a contradição: no ano em que o agronegócio vive o melhor momento de produção e exportação, é o ano que a gente mais tem fome no Brasil, comparou Lula. “Não é que falta alimento no Brasil, falta dinheiro para as pessoas comprarem alimento. No Brasil e em outras partes do mundo, porque são quase 800 mil pessoas com fome”, analisou.

“E o que faz Bolsonaro? Ele briga com a China”, criticou. “Imagina se um dia a China resolve dizer, “não vou comprar mais soja, milho, minério de ferro do Brasil”. O que iria acontecer? O presidente precisa aprender a respeitar, a conviver com os outros. O Brasil está efetivamente desgovernado, o presidente não fala uma palavra como governador”, afirmou.

Desastre na pandemia

De acordo com o ex-presidente, desde o início da pandemia, Bolsonaro agravou a crise brasileira, cuja economia já rumava para a catástrofe antes da chegada do vírus. “Ele praticou um desastre no Brasil. São quase 20 milhões de pessoas vitimadas e 551 mil mortes. Uma parte dessas mortes precisa ser jogada nas costas dele”, justificou.

Bolsonaro, na visão de Lula, teve tempo e oportunidades para tomar providências antes da chegada do coronavírus. “Poderia ter montado um comitê de crise, ter chamado um ministro da Saúde que entendesse de saúde, secretários de estado, cientistas… Criar um protocolo de informação para a sociedade e ao mesmo tempo comprar vacina quando foi oferecida e ele não quis comprar porque não acredita na vacina, ele só acredita na cloroquina”, sentenciou.

Derrota do pregador do ódio

Para Lula, Bolsonaro é um pregador do ódio, alguém comprometido apenas em contar mentiras diariamente e disseminar preconceito contra as minorias. “Precisamos colocar um fim nisso, colocar alguém civilizado [na Presidência], com sentido humanista, que pensa e reconheça a palavra amor, alguém que queira distribuir livros ao invés de armas, gerar emprego, riquezas para o país e o povo”, resumiu Lula.

Para Lula, Bolsonaro, que venceu a eleição de 2018 na base da bravata e de fake news, foi derrotado pela pandemia. “Qual é a nova política do Bolsonaro? Ficar refém do centrão, colocar R$ 20 bilhões do Orçamento para que deputados possam se reeleger”, criticou. 

Lula reafirmou a necessidade de que o país seja pacificado. “Vamos acabar com essa nojeira do escravismo, do preconceito racial, essa nojeira contra LGBT”, pediu Lula. Temos de ser tratados como seres humanos, temos que cuidar da nossa espiritualidade, do nosso amor e compaixão com as pessoas”.

Terceira via

Lula defendeu que as eleições de 2022 tenha quantos candidatos os partidos julgarem necessários na disputa e não apenas uma “terceira via“, como a imprensa tem ventilado. “Cada partido que está incomodado que lance seu candidato. 12 candidatos concorreram em 1989”, lembrou o líder petista.

“Me lançaram candidato, eu era o azarão”, apontou Lula, citando o fato de que só não foi eleito em 1989 porque uma manipulação da Globo impediu que ganhasse após o último debate no segundo turno. ”Depois, ganhamos as eleições. E os empresários nunca foram embora, como ameaçou Mario Amato”.

Democracia x fascismo

Lula disse que não está preocupado com uma polarização em 2022. “O que está em disputa é uma candidatura que representa a democracia e outra, o autoritarismo, o milicianismo, o fascismo, a antidemocracia. É isso o que está em jogo nesse momento”, advertiu.

O ex-presidente defendeu a importância de um governo que amplie o diálogo entre os diversos atores da sociedade civil. “É preciso mais que um partido político e um presidente da República”, explicou. “É preciso muitos movimentos da sociedade na perspectiva de encontrar soluções que envolvam trabalhadores e empresários, políticos e não políticos, igreja católica e evangélica, todo mundo. Porque o problema é de todo mundo e a solução passa por todo mundo”, pontuou. 

“As pessoas sabem o que eu fiz nesse país”, relatou. “Quem é o presidente que melhor tratou prefeitos e governadores, inclusive de oposição ao PT?”, questionou. “Eu nunca olhei de que partido era o governador ou o prefeito. Eu tratava todo mundo com respeito porque eu pensava era no povo brasileiro”, disse Lula, lembrando dos benefícios de programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos, duas marcas das administrações petistas.

“Hoje Não é assim. Hoje tem um presidente que não gosta dos governadores do Nordeste, do governador de São Paulo, não gosta do Rio Grande do Sul. De quem ele gosta? Só dele e das fake news dele”, condenou. 

A volta da esperança

Lula reforçou que o Brasil tem jeito e que para voltar a crescer, o país deve incluir o pobre no Orçamento federal. “Vou trabalhar para vender à sociedade a ideia de que a gente pode trazer a esperança de volta, o emprego, o direito de tomar café, almoçar e jantar todo santo dia, de as pessoas viajarem com suas famílias nas férias, que possam comprar um presente de Natal ou de aniversário para uma criança”, reiterou Lula.

“Por que eu saí do governo com 87% de bom e ótimo depois de oito anos de mandato e algumas pessoas não gostam de mim? Só pode ser porque nós demos direito de o pobre entrar na universidade, e você sabe quantas escolas técnicas fizemos no estado de Goiás, a expansão que fizemos na universidade…. Tem gente que não gosta porque esse país tem uma elite econômica com a mentalidade escravista. Eu quero combater isso com muita força”, alertou.

“Quando eu cheguei em 2003 à Presidência, as pessoas diziam que o Brasil estava quebrado, que não tinha recuperação. O Brasil devia U$ 30 bilhões ao FMI, o Malan ia todo final de ano para Washington pegar dinheiro para fechar as contas no Brasil. A inflação estava 12%, o desemprego estava crescendo e as pessoas diziam, “o Lula não vai conseguir””.

Legado

“O que aconteceu? Conversei com todos os segmentos da sociedade. Construí uma coisa chamada credibilidade. Dei para as pessoas previsibilidade do que iria acontecer no país. Comecei a viajar o mundo para o Brasil ser reconhecido em nível internacional. O Brasil passou a ser protagonista. Fui o único presidente da história do Brasil que participou de todas as reuniões do G8”, declarou Lula.

“Ajudei a criar o G20 para enfrentar a crise de 2008/2009. Falei que a crise seria uma marolinha e foi, porque ela durou um ano no Brasil. Quando eu deixei o mandato a economia crescia 7,5% ao ano e comércio quase 16% no varejo”, ressaltou.

“Deixamos U$ 370 bilhões de reserva. O Brasil devia U$ 30 bilhões, pagamos e emprestamos dinheiro ao FMI na crise de 2008. Essa reserva era uma garantia para o governo trabalhar tranquilamente. E o país só não quebrou, de lá para cá, por causa das reservas que deixamos”.

“Esse país tem que ser democrático, de todos, não pode ser de quem tem dinheiro, o país é do povo brasileiro”, exigiu.

“Por isso criamos o PROUNI, o REUNI, o FIES, para garantir que o povo pobre pudesse estudar”, destacou Lula. “Em 500 anos, chegamos a ter 4 milhões e jovens na universidade. Em 12 anos do PT, subimos para 8,2 milhões jovens na universidade. Fizemos uma revolução no país”, concluiu o presidente, frisando que é possível fazer de novo e melhor. 


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