24/06/2021 às 15h33min - Atualizada em 24/06/2021 às 18h10min

Gestor: em tempos de pandemia escutar é uma arte exigente

Como agir diante de situações reais

SALA DA NOTÍCIA Redação
Arquivo Relações Simplificadas
Chegam até nós perguntas sobre o que fazer, como proceder, qual o padrão de ação diante dos mais diferentes graus de manifestação de sofrimento mental dos colaboradores. Em alguns casos o questionamento sobre a própria capacidade de lidar com questões que podem exigir ajuda especializada.
Segundo o Fórum Econômico Mundial, os prejuízos causados pela perda de produtividade em razão da falta de investimentos em cuidados com a saúde mental chegam a 2,5 trilhões de dólares por ano! E esse valor pode chegar a 6 trilhões em 2030!
A questão é urgente e já impacta as equipes, pressionando as lideranças. Neste cenário, é natural que a gente se pergunte se ter uma formação em saúde mental não seria mais uma das tarefas do líder.
Calma! Claro que o bom gestor vai precisar conhecer melhor o tema, mas o trabalho em saúde mental é complexo e exige especialização.
Mas vamos a algumas recomendações que podem apoiar esse profissional.
Se você é líder, o primeiro ponto, e talvez o mais importante, é rever seu próprio conceito sobre o tema. Não ter preconceito em relação à saúde mental. Muitos de nós ainda carrega o estigma de que ir ao psicólogo ou psiquiatra é coisa de gente que tem “problema”. Temos que entender que este é só mais um tema de saúde que deve ser encarado com naturalidade, assim como as campanhas de prevenção de diabetes ou do câncer de mama.
Mas por que é tão natural cuidar do nosso corpo e não da nossa mente?
Parte do desconforto vem da ideia equivocada de que uma pessoa tem depressão ou crise de pânico porque é fraca.  Então, a primeira recomendação é enxergar o próprio preconceito e superar essa barreira.
Segundo ponto: aprenda a reconhecer o sofrimento. O seu e o do outro. Aceitar-se vulnerável e aceitar a sensibilidade das pessoas é um exercício essencial.
Isso nem sempre é muito fácil para um líder, mas faz diferença. Aprenda a reconhecer primeiro em você os sinais de que algo não está indo muito bem. Como vai o seu nível de estresse? Sua saúde física? Seu sono está regular ou você acorda cansado? Estamos em meio a uma pandemia! É natural que as respostas não sejam todas positivas.
Leve essa mensagem para sua equipe, lembre a importância do autoconhecimento e do cuidado com o bem-estar psíquico.
Terceira recomendação: acolha. Ouça. Escute a pessoa com atenção e sem interrupções. Evite dar dicas, opiniões sobre as histórias, não dê diagnósticos. Escutar é uma arte exigente. O cara do seu time sabe que você não é especialista em saúde mental, não carregue essa expectativa. O que você pode fazer é escutar de verdade.
Agora, e quando a situação é muito difícil?
Podemos descrever três níveis de complexidade.
Primeiro: quando alguém começar a chorar na sua frente. Ofereça água, lenço de papel e escute. Se você não souber o que dizer ou responder, seja honesto. Diga que vai pensar e procurar a melhor saída. O mais comum é a gente cair na armadilha do líder: achar que tem que ter resposta para tudo.
Segundo: e se acontecer um surto ou uma crise de ansiedade?
A melhor iniciativa é dar espaço, transmitir a sensação de segurança. Você pode perguntar se a pessoa quer se sentar, se quer água, se quer que telefone para alguém ou se quer a presença de alguma pessoa de confiança entre os colegas de trabalho.
Se a equipe está presente, retire do ambiente os curiosos e as pessoas que não podem ajudar no momento. E chame ajuda. Um médico, uma enfermeira, um psicólogo. Nestas situações, é comum o corpo apresentar sudorese ou taquicardia. Um médico que elimine a ideia de riscos mais graves, pode acalmar.
Terceiro e bem mais raro: situações em que haja risco a própria integridade física ou a dos outros, como nos surtos psicóticos.
Para esses casos, é preciso que já exista, antecipadamente, um plano de ação definido com o médico do trabalho da sua empresa. Mas, de maneira geral, deve-se chamar o serviço de emergência mais próximo. Se necessário, fazer a contenção física e levar o colega para um lugar seguro, aguardando até a emergência chegar.
A partir daí, além dos procedimentos burocráticos, não se pode esquecer do apoio às pessoas que presenciaram esse momento. Mas para isso, é preciso contar com um especialista em saúde mental nas empresas.
E vale, para todos esses casos, sempre valorizar as qualidades e as relações que esse colaborador em sofrimento tem. Isso fará com que ele se conecte novamente com o melhor de si mesmo.  E você estará deixando claro que você e a equipe guardam dele o que tem de melhor.
A verdade é que, finalmente, efeitos psicológicos da pandemia estão trazendo às empresas a percepção de que a saúde física-mental de seus colaboradores interfere, claramente, no ambiente de trabalho e na produtividade. A OMS afirma que cada dólar investido em saúde mental traz outros 5 de retorno para a empresa.
Por isso, um sexto ponto é entender, rapidamente, que um programa de saúde mental é um programa de saúde institucional, organizacional. Isso quer dizer que, através de uma filosofia de prevenção, cuidado e transformação da organização do trabalho não só vamos evitar que as pessoas sofram tanto como vamos ajudá-las a desenvolver a sua potência. Um jogo em que todos ganham.
 
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