03/02/2019 às 13h12min - Atualizada em 03/02/2019 às 13h12min

Relatórios alertam para sete barragens com grau de risco à vida e ao meio ambiente no estado

O rompimento ou vazamento podem causar mortes e grandes impactos sociais, econômicos e ambientais

O Globo Rafael Galdo
A represa de Juturnaíba, entre os municípios de Silva Jardim e Araruama, está numa lista que preocupa especialistas Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
RIO - O Rio Paraíba do Sul e uma estrada de terra separam a casa de Isadora Maria de Jesus de uma barragem com 204 mil metros cúbicos de rejeitos de mineração, na divisa entre Quatis e Barra Mansa, no Sul Fluminense. Apesar de viver diante do perigo, ela não imaginava que o paredão gramado que vê de seu quintal era uma contenção para o material. Trata-se de uma construção que, guardadas as proporções, se parece com as que estouraram em Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais.
 
Só no Rio de Janeiro, segundo relatórios de órgãos federais, há pelo menos sete barragens, que armazenam água ou restos de mineração, com alto dano potencial associado (DPA). Ou seja, podem causar mortes e grandes impactos sociais, econômicos e ambientais em caso de rompimento ou vazamento. As más condições de conservação fazem com que três sejam avaliadas como de alto risco (CRI) para acidentes.

Embora poucos saibam de sua existência, essas unidades, juntas, têm em seu entorno cerca de 240 mil habitantes, o que aumenta a preocupação. E não é só: uma emergência afetaria o fornecimento de água para oito milhões de moradores do estado. Um eventual rompimento da barragem de Quatis, da Cimento Tupi, a 500 metros da Via Dutra, derramaria toneladas de argila arenosa e aumentaria a turbidez no Rio Paraíba do Sul, que abastece 7,3 milhões de pessoas na Região Metropolitana. Os estragos na Vila dos Remédios, onde Isadora mora, seriam grandes.

— Fiquei surpresa ao saber que esse morro é uma barragem. Dá medo, porque não faço ideia do que fazer em caso de acidente — diz Isadora.

 

O MAPA DO PERIGO
Barragem de água
Rejeitos da produção de cimento
Dano Potencial Associado (DPA)
Impacto social, econômico e ambiental que a barragem pode provocar, em caso de acidente
Categoria de Risco (CRI)
Aspectos que podem influenciar na probabilidade de um acidente por falhas de conservação
Elevatória
Ponte de
Lago de
Ferro
Javary
Quatis
ALTO DPA
ALTO DPA
ALTO DPA
Cachoeiras
de Macacu
Bebidas SA
ALTO CRI
Lagoa Juturnaiba
Rio Imbuí
Gericinó
ALTO DPA E ALTO CRI
ALTO DPA
ALTO DPA
Saracuruna
E ALTO CRI
ALTO DPA

 

Outros moradores contam que, há cerca de dois anos, num dia de chuva forte, o reservatório transbordou e derramou uma lama avermelhada perto do rio. A Cimento Tupi nega e sustenta que a barragem, que produzia quartzito (um tipo de areia), não recebe material desde 2015. Alega que, mesmo desativada, a barreira é monitorada por medidores de deslocamentos desde o ano passado e passa por inspeções regularmente. A próxima está prevista para o mês que vem. A construção é uma das três do estado que estão no Cadastro Nacional de Barragens de Mineração, da Agência Nacional de Mineração, mas é a única com alto DPA.
 

Já o último Relatório de Segurança de Barragens da Agência Nacional de Águas (ANA), concluído em novembro do ano passado com base em dados de 2017, aponta que o Rio tem 29 represas para abastecimento ou uso industrial, entre outras funções. A fiscalização de todas é de responsabilidade do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), e 21 sequer foram classificadas quanto ao grau de risco. No entanto, duas constam de uma lista de 45 em todo o país com algum comprometimento estrutural importante, com altos DPA e CRI: Gericinó, entre Nilópolis e Mesquita, e Juturnaíba, entre Silva Jardim e Araruama.

Agência pede parecer

A primeira é pequena, operada pelo Inea, para controle de enchentes perto da Chatuba, na Baixada Fluminense. A segunda é uma represa com 48 quilômetros quadrados que abastece cerca de 650 mil pessoas em oito municípios da Região dos Lagos, como Búzios e Cabo Frio.

Valdemir e Maria José são moradores e donos de um restaurante da região da represa de Juturnaíba Foto: Brenno Carvalho

Valdemir e Maria José são moradores e donos de um restaurante da região da represa de Juturnaíba Foto: Brenno Carvalho

Valdemir e Maria José são moradores e donos de um restaurante da região da represa de Juturnaíba Foto: Brenno Carvalho

Desde o desastre de Brumadinho, imagens da má manutenção no vertedouro da barragem, da empresa Prolagos, vêm espalhando temor na região. Há grandes placas de cimento quebradas perto das comportas da represa e vegetação acumulada nas estruturas que reduzem a velocidade de saída da água do reservatório.

— Deus nos proteja de um acidente. Se estourar, vai tudo abaixo, fazendas e casas ao longo do Rio São João — diz Valdemir de Sá, dono de um restaurante às margens do lago.
 

Professor de Engenharia Geotécnica da Coppe/UFRJ, Maurício Ehrlich, que participou de estudos durante a construção da barragem, ressalta que, além de afetar o abastecimento na Região dos Lagos, problemas em Juturnaíba provocariam inundações na Bacia do São João. Poderiam ser atingidas áreas de Barra de São João, em Casimiro de Abreu, de Rio das Ostras e Tamoios, segundo distrito mais populoso de Cabo Frio.

— A construção da barragem, concluída nos anos 1990, foi muito cuidadosa — observa Ehrlich. — Mas manutenção é outra questão.

1 de 10

Segundo o relatório da ANA, a represa, com problemas nas estruturas dos vertedouros e operacionais oriundos do excesso de vegetação, precisaria de R$ 15 milhões em obras. No último dia 29, a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio (Agenersa) determinou que a Prolagos realize fiscalização em Juturnaíba e apresente um parecer em 30 dias. Também solicitou um plano de evacuação atualizado, com sirenes de emergência em áreas sob risco. Pedido semelhante foi feito pelo Ministério Público Federal. O Inea informou que a Prolagos e a Águas de Juturnaíba foram notificadas duas vezes em 2018 para realizar a Inspeção de Segurança Regular (ISR) na barragem.

A Prolagos garante contar com consultorias especializadas para atestar a eficiência da operação e afirma que, no último laudo, de maio de 2018, as condições estruturais da barragem foram consideradas na normalidade.
 

Uma terceira barragem considerada de alto risco armazena água para uso industrial em Guapiaçu, em Cachoeiras de Macacu. As demais barragens consideradas com alto dano potencial associado ficam nas cidades de Miguel Pereira, Petrópolis, Teresópolis e Duque de Caxias.

Só no Rio, segundo relatórios de órgãos federais, há pelo menos sete barragens, que armazenam água ou restos de mineração, com alto dano potencial associado (DPA). Como a da Cimento Tupi, em Quatis Foto: Guito Moreto

Só no Rio, segundo relatórios de órgãos federais, há pelo menos sete barragens, que armazenam água ou restos de mineração, com alto dano potencial associado (DPA). Como a da Cimento Tupi, em Quatis Foto: Guito Moreto

Só no Rio, segundo relatórios de órgãos federais, há pelo menos sete barragens, que armazenam água ou restos de mineração, com alto dano potencial associado (DPA). Como a da Cimento Tupi, em Quatis Foto: Guito Moreto

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