29/03/2024 às 11h07min - Atualizada em 29/03/2024 às 11h07min

Salvador é singular em sua rica pluralidade

Múltiplas cidades e múltiplos encantos

Ab Noticia News
portal Atarde
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“Salvador foi fundada para ser um dos umbigos do mundo”, conta o mestre em Ciências Sociais Milton Moura. Professor da Faculdade de História da Ufba, ele ressalta a posição da cidade nas rotas marítimas para o continente africano e para a Índia. A sua condição de parada estratégica nas expedições europeias a caminho da África ou do Oriente foi o primeiro passo para a formação da capital que conhecemos, diversa em cultura, tradições, histórias e tipos humanos. Um lugar singular em sua pluralidade.

Aos povos originários, os tupinambás, logo se juntaram os portugueses - tomando ‘posse’ das terras sob domínio do seu império - e africanos escravizados, segundo Moura, trazidos inicialmente dos portos de Angola e depois embarcados também onde hoje está o Benin e a Nigéria. Na fundação de “São Salvador da Bahia de Todos os Santos”, em 1549, possivelmente a população já contava com imigrantes galegos e de outras regiões da Espanha.

Essas diferenças se encontravam, de forma voluntária ou não, se impondo, se fundindo, se transformando e dando origem a agrupamentos urbanos - bairros, comunidades, subdistritos -, reunidos pelos aspectos geográficos, históricos, culturais e até comerciais. São cidades dentro da cidade, territórios que A TARDE observa e, sob essa ótica, apresenta ao leitor, com suas peculiaridades e os pontos de conexão que os fazem únicos sem deixarem de ser totalmente Salvador.
 

Há marcas do nascimento da capital baiana nas construções do Centro Antigo, na boêmia com brisa marítima da Orla Cultural, no ar bucólico da Península Itapagipana, no ritmo acelerado do Centro Financeiro, na força afrodescendente da Liberdade, nas cicatrizes da luta do Bairro da Paz, na resistência cultural do Nordeste de Amaralina, nos trilhos urbanos do Subúrbio Ferroviário, na maresia e nos rostos bronzeados das praias, na imensidão das muitas Cajazeiras, nos cumes de Brotas e na vida comunitária das Ilhas.

Na visão do pesquisador, temos hoje uma amálgama desigual, em que os diferentes estão em contiguidade, ou seja, próximos no espaço físico, mesmo diante de grandes distâncias sociais. Ele destaca as festas populares, tema central dos seus estudos, como locais de encontro e fricção, mas seu pensamento pode ser percebido em tantos outros contrastes unidos a similaridades. Basta ver que os moradores do Corredor da Vitória e da comunidade da Gamboa se debruçam sobre mesma encantadora Baía de Todos-os-Santos.

Do ponto de vista urbanístico, o arquiteto e historiador Francisco Senna percebe rupturas no compartilhamento territorial, classificando como ‘guetos’ tanto grandes condomínios fechados quanto áreas consideradas de risco. Ao mesmo tempo, ele vislumbra uma tentativa de reversão do processo de empobrecimento que ganhou corpo no fim do século XIX, com a numerosa migração das áreas rurais para a capital, então despreparada para absorver o acréscimo populacional.

“Salvador foi uma cidade riquíssima, com grande comércio, com grandes trapiches, com grande movimento de dinheiro, com casas bancárias, com grandes construções, construções pioneiras. O primeiro elevador público do mundo, a primeira linha de transporte urbano sobre trilho, que são os bondes, da América Latina”, comenta. Fundado em 1873, o ascensor pioneiro citado por ele continua em operação e é presença icônica em cartões postais: o Elevador Lacerda.
 

Globalização no DNA

Se atualmente a capital baiana não figura entre as grandes metrópoles do mundo - embora populacionalmente se encaixe no conceito -, Senna ressalta que seu perfil globalizado era inegável até o início do século XIX, quando a navegação a vapor criou novos polos e tirou o Porto de Salvador da posição de liderança no Atlântico Sul. Para ele, a globalização ficou no DNA da cidade, gerando essa diversidade palpável e interativa, alternando momentos tranquilos e ciclos de exclusão.

É o que o historiador e professor Rafael Dantas, associado do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), chama de ‘moqueca cultural’, usando como metáfora uma iguaria que parece reunir influências indígenas, africanas e portuguesas, apesar da falta de consenso entre os estudiosos da gastronomia brasileira. Na nossa mistura, mais do que as tradições já citadas, ele acrescenta as de origem ibérica e inglesa - no século XIX, quando construíram a Estação da Calçada -, enfatizando as diferenças entre os vários grupos étnicos trazidos da África.

As heranças estão no nosso vocabulário, nos nossos gestos, nas expressões características espalhadas pela cidade, onde o único idioma oficial é o português - ou poderíamos dizer ‘brasileiro’? -, mas as formas de falar são incontáveis.
 

Geólogo e bacharel em história, Rubens Antonio Barbosa, associado do IGHB, diz que pessoas com ouvido apurado conseguem, ainda hoje, identificar sotaques específicos de certas áreas de Salvador. Essas variações no falar e nos hábitos são bastante relacionadas à geomorfologia e ganham mais peso em lugares como a primeira capital do Brasil, dividida em Cidade Alta e Cidade Baixa.

“O lidar com o ambiente, com as formas de relevo é algo imprescindível quando a gente está falando de habitação, de expansão, até de contenção urbana. Se é fácil contatar, a gente tende a praticar uma dialética cultural, se é mais isolado a gente tende a desenvolver, vamos dizer, os dialetos culturais”, explica Barbosa.

São traços que atravessam as barreiras socioeconômicas e dão aos moradores desses bairros um ponto de convergência para além da semelhança no endereço. Seus modos de vida e suas formas de falar unificam os diferentes dentro de cada território, seguindo o caminho do caldeirão soteropolitano. Assim elaboramos uma Salvador que se apresenta ao mundo como uma cidade sem similares, qualidade que Milton Moura associa à baianidade e define: “Nós construímos de nós mesmos uma narrativa que nos apresenta, ao mesmo tempo, díspares e juntos”.


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