19/01/2020 às 21h40min - Atualizada em 19/01/2020 às 21h40min

Por que o acordo EUA-China deve acabar com a bonança da soja do Brasil

O Brasil está perto de superar os EUA como o maior produtor mundial de soja, mas mas isso pode mudar com resolução da guerra comercial

Ab Noticia News
Por Tatiana Freitas, da Bloomberg
Reprodução

O acordo comercial assinado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, trouxe poucos detalhes sobre como ocorrerão as compras adicionais de produtos agrícolas norte-americanos pelos chineses, mas uma coisa parece clara: a bonança de dois anos da soja brasileira deve acabar.

Mas agricultores dos EUA talvez ainda tenham de esperar para comemorar: embora a China tenha concordado em gastar cerca de US$ 32 bilhões a mais em produtos agrícolas dos EUA anualmente nos próximos dois anos, a soja brasileira não será eliminada da equação.

O mais provável, dizem traders e analistas, é que os ciclos de colheita e diferenciais de preços levem o mercado de volta ao antigo status quo.

Isso significa que a oferta brasileira terá alta demanda no primeiro semestre do ano, quando o país colhe sua safra e, portanto, tem vantagem competitiva. Os EUA dominam no segundo semestre, quando sua produção ganha força e pode competir melhor em termos de preço.
 

Confira os ganhos do Brasil durante a guerra comercial e o cenário para os próximos meses:

Grande vencedor

O Brasil aumentou consistentemente a produção de soja desde o início deste século para ajudar a atender a forte demanda da China pela semente oleaginosa, usada em produtos como ração animal e óleo de cozinha. As tensões comerciais aceleraram esse processo.

Durante a disputa comercial iniciada em 2018, o Brasil reinou nos dois semestres do ano e, sem dúvida, o período foi particularmente bom para os agricultores do país.

As exportações da oleaginosa para a China subiram para um recorde de 69 milhões de toneladas em 2018, e a área plantada também atingiu nível recorde na temporada seguinte. O Brasil está a caminho de superar os EUA como o maior produtor mundial de soja este ano.

A primeira fase do acordo comercial promete começar a reduzir esses ganhos, embora uma mudança mais relevante no fluxo da commodity ainda deva levar um tempo para acontecer.

“A China já se comprometeu a comprar a maioria dos grãos do primeiro semestre de 2020 da América do Sul”, disse Terry Reilly, analista sênior de commodities da Futures International.

Os estoques de soja dos EUA estão mais de 50% abaixo do recorde de 2018, por isso o aumento real das vendas do país só deve ocorrer quando os agricultores começarem a colher em setembro.

Parcela do Brasil nas importações de Soja da China

Parcela do Brasil nas importações de Soja da China

 Em laranja, a parcela do Brasil nas importações de soja da China. Em branco a dos EUA, e em azul o restante.

Em laranja, a parcela do Brasil nas importações de soja da China. Em branco a dos EUA, e em azul o restante. (Gráfico/Bloomberg)

Redução das exportações

Mesmo com alguma proteção por meio de vantagens de preços e época das colheitas, as exportações anuais do Brasil serão afetadas.

O país é o maior exportador de soja do mundo, e o produto responde pela maior parte da balança comercial. A receita desses embarques totalizou R$ 26,1 bilhões (US$ 6,24 bilhões) em 2019.

“O Brasil se acostumou a exportar pelo menos 70 milhões de toneladas de soja em cada um dos últimos dois anos”, disse Pedro Dejneka, sócio da MD Commodities, em Chicago.

Os embarques brasileiros devem ter um bom desempenho no primeiro semestre favorecidos pela safra recorde e um dólar valorizado, “mas, a partir de meados do ano, a China voltará a comprar com força a safra dos EUA, o que não aconteceu nos últimos dois anos”, disse.

Em uma estimativa preliminar, ele diz que os embarques do Brasil poderiam encolher em até 10 milhões de toneladas, para 64 milhões, já que a participação do país nas importações chinesas tende a voltar para os níveis anteriores aos da guerra comercial. O Brasil exportou 74 milhões de toneladas no ano passado.

Viciado na China

Viciado na China

 Em laranja, a dependência do mercado chinês da parte dos exportadores de soja brasileiros

Em laranja, a dependência do mercado chinês da parte dos exportadores de soja brasileiros (Gráfico/Bloomberg)


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