08/03/2020 às 14h41min - Atualizada em 08/03/2020 às 14h41min

Os desafios de ser mulher em 2020

Conquistamos muito até aqui, mas nossa luta ainda é diária

Ab Noticia News
Aline Imercio
Mesmo se você estiver lendo esse texto em outro momento, saiba que ele foi feito hoje, no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher. Por isso, na efervescência das questões de igualdade de gênero é que aproveitei para debater: quais são os desafios de ser mulher em 2020? Bom, você pode parar e pensar que são poucos, afinal, a mulher do século passado enfrentava muita submissão, não tinha direito a voto e não tinha voz. Mas será que é fácil mesmo ser mulher hoje em dia?

Não há de se negar que, com muitas lutas, a mulher conquistou o mercado de trabalho, conseguiu estudar, se formar, mostrar que é muito mais capaz do que no passado se imaginava. Mas, ainda estamos muito (muito!) longe de alcançar a igualdade de gênero. De sermos, assim como os homens, respeitadas.  E não falo isso da boca para fora, e nem porque sou mulher, os próprios dados mostram isso. Uma pesquisa do IBGE de 2019 mostrou, por exemplo, que, nós mulheres, ganhamos cerca de 20,5% a menos que os homens em todas as profissões. Sem contar nos dados de violência contra mulher, abuso sexual, psicológico.

Nosso cotidiano

Para deixar ainda mais claro o quanto lutamos todos os dias, me deixe explicar um pouco do nosso cotidiano. Todos os dias muitas mulheres pegam transporte público, já pensando em quem será que vai sentar do seu lado (“tomara que não seja um homem que fique me encarando ou intimidando”). Ônibus cheio? Bom aí, temos que distribuir cotoveladas em homens que “se aproveitam” da situação para encostarem em nossos corpos. Se a mulher for dirigindo até o trabalho ela enfrenta xingamentos baixos do tipo “ por que não pilota um fogão? Tinha que ser mulher!”.
No trabalho, temos que estudar o dobro. Quantas vezes já não ouvi, mesmo em salas de espera de pronto-socorro: “Ah tomara que nãos seja aquele médica mulher para me atender, não confio muito”, ou no ambiente de trabalho “Fulano é mais simpático, a mulher é sempre mais séria, e fica falando de teoria”. Sabe por que temos que ser mais sérias? Porque se nos soltarmos mais, como os homens, não irão nos respeitar, como respeitam a eles. Por que em uma aula ou uma entrevista temos que despejar mais teoria, mostrar que estudamos para estar ali? Porque para mulher é muito mais difícil demonstrar que se chegou por capacidade a um cargo, do que para o homem.

Se a mulher é mãe, então... A responsabilidade aumenta ainda mais! Ainda bem que hoje muitos pais se conscientizam do seu papel e fazem sua parte na criação dos filhos. Não, não é bonitinho e nem um favor o homem cuidar de um bebê, ele tem essa obrigação, assim como a mulher tem. Mas, porque os grupos para comunicados da escola ainda são compostos só por mães? Porque ouvimos sempre quando uma criança apronta: “Mas sua mãe não deu educação para você?”. Ou, como ouvi certo dia de uma entrevistada: Por que quando a mulher mãe chega a um evento sem o filho logo perguntam “com quem ficou a criança?”, e quando essa mesma situação é vivida pelo homem, esse questionamento nem é levantado?

E sem contar que, se a mulher é mãe ela enfrenta outro obstáculo na hora de procurar um emprego, porque, sim, muitas empresas ainda perguntam: “Mas você tem filhos?”. E se tiver isso já é, muitas vezes, um critério silencioso de desclassificação para a vaga. E falo isso por experiência própria, já perdi as contas de quantas entrevistas de emprego participei em que essa era uma das primeiras perguntas, que vinha logo após a pergunta de que se eu era casada (porque se eu for casada, tiver na casa dos 30 anos e não tiver filhos, isso já é um critério de desclassificação também- afinal, posso tê-los em breve). E há critérios ainda piores, já ouvi, na época do meu primeiro emprego, de um recrutador: “Você é ótima, mas achamos um homem com todas as mesmas características que você, iguais. Ficaremos com ele (porque é homem).”

Percebem o quanto é difícil ser mulher hoje? E, sem contar, nos tantos obstáculos pequenos que vamos passando ao longo do dia: cantadas desrespeitosas na rua, assédio do chefe no ambiente de trabalho (quantas empregadas domésticas, por exemplo, não sofrem isso caladas porque precisam do emprego?), professores que assediam alunas na faculdade, na escola, violência sexual e psicológica dos próprios maridos, namorados (que rebaixam e humilham as mulheres em público até elas perderem totalmente sua autoestima) e a violência física que mata a cada 2 horas uma mulher no nosso país (dados do Monitor da Violência 2019 - Estudo do G1). E quando a gente chora, e quando a gente explode, somos sensíveis demais. Reflita: somos muito mais fortes do que todos possam imaginar.

E concluo aqui dizendo que as mulheres também precisam defender às mulheres. Muitas vezes ouço que a luta do feminismo está ligada ao ateísmo, ou a mulher não ter vaidade. Não! A luta do feminismo está exclusivamente ligada à mulher poder ser o que ela quiser! A ela poder lutar por seus direitos, trabalhar e ganhar o mesmo que os homens, ser respeitada, não tolerar chantagem emocional, não ser cobrada por uma responsabilidade que não é só dela, não ser vista como um objeto. O feminismo não é a versão feminina do machismo. No machismo o homem se impõe como superior, e não queremos isso, não queremos que a   mulher seja mais que o homem, queremos que ela seja igual e que todos possam ser respeitados da mesma maneira. Que as mulheres lutem por isso e que os homens participem e apoiem essa luta!
 
 
 
 
 
 
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